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Notas da Missão em Maturuca Imprimir e-mail
24-Jun-2010
26 de Abril de 1977
Foi há 33 anos que a comunidade de Maturuca assumiu o compromisso: OU VAI OU RACHA. Compromisso que teve a ver com a bebida na altura abundante devido à presença de garimpeiros que continuamente promoviam festas. E os índios com as assim chamadas bebidas brancas não se davam bem.

Hoje a comunidade reconhece que essa decisão foi fundamental para manter a comunidade unida e ritmando ACERTADAMENTE  os passos na luta pela sua terra livre.

Foi doloroso porque algumas famílias nessa altura não aceitaram, originando uma cisão na comunidade e tendo de se deslocar para outro lugar dando origem a nova comunidade TICOÇA aqui bem perto que acabou por aderir à SODIUR, hoje e ontem paparicada pelos políticos de Boa Vista.
Longa foi a caminhada da comunidade de Maturuca. Onde havia problema com fazendeiro, com garimpeiro lá estava Maturuca a apoiar as comunidades em causa. Tudo porque esta comunidade um dia assumiu que tinha de reagir àqueles que tentavam matar com o álcool a sua dignidade de povo.


Todos os anos o dia 26 de Abril é FERIADO aqui em Maturuca. Este ano depois de celebrada a missa pelas 8h00, o tuxaua informou a comunidade das diligências que vai fazendo em BOA VISTA e das fofocas que inventam para denegrir a ação das lideranças e dos missionários. Pelo meio dia no malocão almoço comunitário. Arroz daqui, feijão dalém, farinha de todos os lados, a famosa damorida, o caxiri de mão em mão a acompanhar a carne do boi que foi morto para a ocasião. Pela tarde desporto e até à meia noite “forró na cuia” para todo o mundo dançar. FERIADO não promulgado oficialmente, mas a comunidade decidiu e está JUSTIFICADO. O sangue derramado, as humilhações sofridas por este povo nos 34 anos de luta  são o selo que autentica este FERIADO sem decreto no Diário da União.

NOVA IGREJA
Chama-se igreja de Arabath, o tuxaua que foi à Guiana pedir a um missionário para vir a Maturuca falar do Evangelho.
Edifício grande onde sobressaem os troncos de árvore a sustentar o tecto, quais colunas de catedral. Ainda não terminaram as obras mas foi bonito presenciar adultos, jovens e crianças, dias inteiros e até noites, trabalhando na construção.  Alí ao lado bem perto a VELHA IGREJA, edifício em madeira, marcado pelo tempo, mas com sinais duma presença assídua nas catequeses que a partir da PALAVRA iluminaram este povo sobre o caminho a seguir nas várias etapas da libertação.


COMEMORAÇÃO DOS NETOS DE MAKUNAIMî
Do que aconteceu nesses dias em Maturuca certamente os “três peregrinos” portugueses que nesses dias rumaram até às serras da Raposa Serra do Sol já  “narraram” o que “viram, ouviram” e terão identificado alguns  sons do espírito que aqui pairou.

Maturuca ficou desfigurada com a invasão de “parentes” e convidados, entre estes o presidente Lula. Mas valeu a pena, os índios tiveram oportunidade de expressar  seus sentimentos de gratidão a todos aqueles que com eles estiveram na luta. Em nossa casa e dependências acolhemos todos os que nela couberam, partilhando quartos, no chão ou na  rede. As baterias da energia solar tiveram “dor de barriga” tal foi a exigência nesses dias com computadores ligados e pilhas a carregar. Já procuramos  novas baterias pois estas continuavam com diarreia, isto é, não seguravam a energia que as placas solares para elas enviavam.

O Lula prometeu voltar a Maturuca em Setembro dizendo que queria ver muita coisa mudar até essa data. As lideranças já se habituaram a saltar para Brasília quando Boa Vista faz de mouca. Para já ficou um gerador que ilumina toda a comunidade, (o Presidente disse: o gerador não sai mais) em Julho vai haver telefones, internet, estradão melhor, enfim, promessas que até poderão realizar-se. Mas fica  nas lideranças a desconfiança de tanta prenda junta e nas famílias o receio do impacto das novas tecnologias sobretudo nos jovens ainda neste momento muito ligados à família.

Simultâneamente estão propondo aos tuxauas a construção duma pequena hidroeléctrica na Cachoeira da Andorinha, sem barragem, aproveitando apenas lateralmente o desnível da queda de água que é de 27 metros. O volume da água é constante. Este método em pouco tocaria no ambiente. Como gato escaldado da água fria tem medo, os tuxauas temem que seja como que uma isca para os apanhar na decisão da barragem no rio Cotingo que deixaria debaixo de água várias comunidades entre elas a do Tamanduá, e incomodaria muitas outras.

CAMINHADAS  A PÉ
São exclusividade dos padres Mário e Afonso. Mas o Toyota  já me levou às comunidades da Enseada, Pedra Branca, Uiramutã, Karaparu, Igarapé do Galo, S. Mateus, Tabatinga ... Na Enseada estive no domingo de Ramos. Depois duma recepção sempre carinhosa com danças e palavras de boas vindas do tuxaua, iniciamos a procissão de Ramos. Nela participaram os alunos da escola vestidos tradicionalmente e não faltou o burrinho carregando um aluno (o Cristo) . Depois  o almoço comunitário, o velho tuxaua Damasceno me lembrou os missionários que ele conheceu e que passavam pela maloca: o D, Alcuino, “o padre macuxi” assim chamado por falar a língua, andar a pé e descalço de comunidade para comunidade, e terminou com o padre Jorge que ajudou as comunidades a lutar contra os invasores brancos. e as histórias verdadeiras que vários me narraram sobre momentos difíceis vividos por eles aqui na Enseada  “no tempo da luta”: roças várias vezes destruídas, casas queimadas, espancamentos …

O tríduo Pascal celebrei-o na comunidade da Pedra Branca. A comunidade possui uma pequena casa para acolher  o missionário quando por lá passa. No dia de Páscoa estiveram comigo os leigos missionários e a Judith no regresso a Maturuca recebeu a notícia da morte de seu pai. Ao chegar toda a comunidade, sabedora da triste notícia, já rodeava silenciosamente a casa da missão num gesto carinhoso de presença e solidariedade, e assim se manteve até eles partirem para Boa Vista a fim de viajarem para Espanha. Também visitei e celebrei a Eucaristia na maloca do Uiramutã, mesmo junto do rio Maú, na fronteira com a Guiana. Aí foi criado o município, aí estão os militares, confinados entre duas comunidades:  de um lado a maloca do Uiramutã com seu tuxaua Orlando, grande pajé , do outro  S. Francisco. Para ir a Karaparu foi preciso a chuva terminar, pois o caminho tem ladeiras de barro vermelho pegajoso quando está mole. Passamos por várias comunidades, bem perto da Cachoeira do Tamanduá, no rio Cotingo onde querem fazer uma barragem à revelia dos índios. Quando chegamos padre Mário já por lá caminhava visitando os “retiros” de gado que a comunidade tem. Nada menos que 7 com cerca de 3000 cabeças,   fruto do famoso projecto “UMA VACA PARA O ÍNDIO”. No Karaparu o olhar alarga-se, montanhas verdes, temperatura  agradável. Vários cavalos esperam seus donos na hora do regresso a suas casas, algumas bem distantes. Connosco tinha viajado o  coordenador da região das Serras e informou e dialogou com os presentes sobre as situações que continuam a preocupar. Após a celebração da Eucaristia todos se reuniram no almoço comunitário. O tuxaua tinha sacrificado um boi que deu para o almoço e ainda para nos oferecer uns quilos de carne seca ao sol que viria enriquecer nossas reservas alimentícias não fora um cão muito atento que acabou por nô-la surripiar deliciando-se com o petisco.

O "MENINO" KAMBARU
É um igarapé, afluente do rio Cotingo. Quem viajar de ou para Boa Vista tem de o atravessar. Ora o “menino” Kambaru tem birras. Basta vir umas chuvadas, logo ele aproveita todos os pingos de água, manda-os vale abaixo, engrossando, engrossando … e quem quiser passar de um lado para o outro, tem de pedir  ao “menino” Kambaru  que baixe as águas. Ele nem sempre concorda. Os homens decidiram construir uma ponte, alta, bonita, em cimento e ferro. Isso irritou de tal maneira o “menino” que ele contratou todas as nuvens para despejarem ali todos os cântaros de  água  que abalou vale abaixo, arrancou metade do tabuleiro da ponte, e arrastou as pesadas chapas de ferro para bem longe. Então para não irritar mais o “menino” Kambaru, fizeram uma ponte muito baixa, com tabuleiro de cimento, e ele, sempre que chove, diverte-se a fazer esperar os  que precisam de passar de um para o outro lado. Depois de medir  3 ou quatro vezes a altura da água, lá se aventuram, carros, camiões, autocarros e também o nosso  Toyota, não sem reverenciar o “menino” Kambaru. Já lá esperei 5 horas e   quem dias inteiros.




Pe. José Marçal