Liturgia do 23º Domingo Comum – Ano B
09/09/2018
Surdos e mudos

Is 35, 4-7; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37

“Trouxeram então a Jesus um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele. Jesus, afastando-Se com ele da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Effathá», que quer dizer «Abre-te». Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua e começou a falar corretamente”.

Jesus não fazia milagres como quem usa a varinha mágica para obter fosse lá o que fosse. Aquele “suspiro” de Jesus antes de tocar nos ouvidos do surdo fala-nos, sobretudo, da participação de Jesus nos sofrimentos das pessoas: “Tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças” (Mt 8, 17). Os milagres de Jesus são sinais daquilo que Ele realiza sobre nós. O que Ele fez fisicamente naquela ocasião por uma pessoa indica-nos o que deseja fazer todos os dias espiritualmente em cada um de nós. O homem curado por Cristo era surdo-mudo: não podia comunicar com os outros, escutar a sua voz e exprimir os próprios sentimentos e necessidades.

Somos todos um pouco surdos e mudos. Por isso é a nós que o Senhor grita: Effatá! Abre-te! Somos surdos quando, por exemplo, não ouvimos o grito de socorro que se levanta à nossa volta ou longe de nós e preferimos colocar entre nós e os outros um muro de indiferença. Os pais são surdos quando não entendem que certas atitudes estranhas dos seus filhos podem esconder um pedido de amor e de atenção. Um marido é surdo quando não sabe ver no nervosismo da sua mulher um sinal de cansaço ou uma necessidade de clarificação. E o mesmo se diga no que respeita à mulher.
Somos surdos quando, por orgulho, nos fechamos num silêncio ressentido, em situações onde talvez uma palavra de desculpa e de perdão poderiam repor a paz e a serenidade numa casa ou numa comunidade. Somos mudos quando em determinadas situações deveríamos falar e ficamos calados, porque não queremos envolver-nos na resolução dos problemas dos outros. Somos mudos quando não comunicamos aos outros a palavra que orienta e ilumina.

Jesus veio reconciliar-nos com Deus e uns com os outros. Veio repor a comunicação interrompida pelo pecado. Veio abrir os nossos ouvidos e soltar a nossa língua. Fá-lo sobretudo através dos sacramentos. A Igreja viu sempre neste gesto estranho que Jesus realiza no surdo-mudo um símbolo dos sacramentos com os quais continua a tocar-nos fisicamente para nos curar espiritualmente. É por isso que no batismo o ministro repete este gesto de Jesus e pronuncia a sua palavra: “Effatá! Abre-te”.

Precisamos destes divinos sinais para vencer a nossa incomunicabilidade com Deus e uns com os outros. Temos nas mãos a chave para crescer nesta comunhão com Deus e com o nosso próximo. Abre, Senhor, os meus ouvidos, a minha boca e o meu coração para que eu possa não só escutar a tua Palavra, mas também as súplicas de quem implora o direito e a justiça. Cante a minha boca os teus louvores e o meu coração se mova na direção de quem mais precisa do teu amor.

Darci Vilarinho