Liturgia do 14º Domingo Comum – Ano B
08/07/2018
Profetas por vocação

2, 2-5; 2 Cor 12, 7-10; Mc 6, 1-6

O Senhor disse a Moisés: “Farei surgir para eles, do meio dos seus irmãos, um profeta como tu. Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que Eu lhe ordenar. Se alguém não escutar as minhas palavras que esse profeta disser em meu nome, Eu próprio lhe pedirei contas” (Deut. 18, 18-19).
Moisés aparece na Bíblia como exemplo e modelo do verdadeiro profeta. O que é que isso significa? Significa, em primeiro lugar, que na origem e no centro da vocação de Moisés está Deus. Não foi Moisés que se candidatou à missão profética, por sua iniciativa, não foram as suas ações ou qualidades que lhe deram o direito a ser profeta. A iniciativa é de Deus que, de forma gratuita, escolhe, chama e envia em missão.

Na vocação cristã há sempre aqueles que excelem em ações de serviço e de amor à humanidade. São aqueles que não se preocupam por transmitir uma mensagem pessoal ou aquilo que as pessoas gostariam de ouvir, mas, com coragem e frontalidade testemunham fielmente as propostas de Deus para os homens do nosso tempo.  

Como instrumento através do qual Deus age no meio da comunidade humana, o profeta tem consciência que a missão que lhe foi confiada é para levar muito a sério. O seu testemunho não é um passatempo para as horas vagas, mas um compromisso que deve ser assumido e vivido com fidelidade absoluta e total empenho. Ser profeta é tornar presente no meio dos homens o projeto de Deus. Se é de Deus que parte a sua missão, não a pode utilizar em benefício próprio nem pactuar com os poderes deste mundo ou procurar os aplausos das multidões. A nossa missão profética tem de estar sempre ao serviço de Deus, dos planos de Deus, da verdade de Deus, e não ao serviço de esquemas pessoais, interesseiros e egoístas.

O profeta é, no dizer da Bíblia, “o homem de olhar penetrante, que escuta as palavras de Deus, que tem a visão do Omnipotente, que se prostra, mas de olhos abertos” (Num. 24, 3-4). Ele é antes de mais um contemplativo e um orante, que procura penetrar no mistério de Deus, para conhecer a Sua vontade e anunciá-la aos homens do nosso tempo. Mas, de olhos bem abertos, é por outro lado um conhecedor das situações e problemáticas humanas, que continuamente procura iluminar com a Palavra de Deus. Imbuído do Espírito de Deus, ele anuncia e denuncia. Anuncia a Palavra como proposta de Deus, denuncia o divórcio entre fé e vida e aponta os caminhos da reconciliação e da paz com Deus e com os homens. Com um ouvido Ele ouve as Palavras do Senhor, com o outro ele sabe escutar os gritos do seu povo. É um intermediário entre Deus e os homens. Por eles intercede e aponta caminhos novos de entendimento e de promoção.  
Pessoas como o Beato Óscar Romero, dom Pedro Casaldáliga, dom Hélder Câmara, a Beata Madre Teresa de Calcutá ou São João Paulo II, só para citar alguns nomes, encaixam nesta reflexão. São profetas do nosso tempo, pessoas esclarecidas e apaixonadas por Deus e pela humanidade. Mas todos nós, no nosso meio, fiéis à nossa vocação cristã, e de olhos bem abertos, podemos sê-lo também: para unir o que anda afastado, para mediar o que anda desavindo, para promover a justiça e a paz.

Darci Vilarinho